Por que, com pessoas diferentes, a gente sente sempre o mesmo
Não é que a gente escolha sempre a mesma pessoa, porque cada uma foi bem diferente. É que, num certo ponto, a gente se sente do mesmo jeito.

Se você já se perguntou por que repete as mesmas relações, mesmo jurando que dessa vez seria diferente, este texto é pra você. Sou psicóloga clínica e psicodramatista, e em mais de 5 mil horas de consultório vejo essa cena se repetir. Vamos entender juntas o que, de verdade, se repete por dentro.
Por que a gente repete as mesmas relações?
A gente repete as mesmas relações porque o que se repete não é o tipo de pessoa, é a sensação que a gente sente perto dela. Repetir uma relação é se reencontrar, com parceiros diferentes, no mesmo lugar emocional de sempre.
Por isso, quando a pergunta é “por que eu escolho sempre o mesmo tipo de pessoa?”, a resposta costuma travar. Olhando de fora, as pessoas foram diferentes. Uma mais presente, outra mais ausente. Uma mais calada, outra mais falante.
Mas tem outra pergunta, mais honesta, que abre portas: “por que, em relações diferentes, eu acabo me sentindo do mesmo jeito?”. A mesma falta. O mesmo esforço de merecer. A mesma sensação de não ser bem escolhida. É aí, na sensação que volta, e não no rosto do outro, que mora o que a gente repete sem perceber.
A gente aprende a amar antes de aprender a escolher
Boa parte do jeito como a gente ama foi aprendida na infância, observando as relações ao redor, muito antes de ter idade pra escolher qualquer coisa.
Ninguém chega ao amor como uma folha em branco. Antes da primeira paixão, cada uma de nós já assistiu, de camarote, a muitas cenas de amor. As cenas de casa. A criança percebe quem cede, quem cobra, quem cuida, quem some, quem é escolhido e quem fica esperando. E, sem que ninguém explique nada, vai formando dentro de si uma ideia muda de como o amor funciona. Que gosto ele tem. Quanto ele custa. O que uma pessoa precisa fazer pra merecer ficar.
É daí que nasce o que a gente chama de criança interna ferida: a parte de nós que guardou, desde cedo, a dor de não ter se sentido amada o suficiente, e que segue reagindo, hoje, a tudo que toca essa ferida antiga. Junto com ela ficam regras silenciosas que a gente nunca escolheu ter, do tipo “se eu esperar e for paciente, um dia ele me escolhe”, ou “não posso cobrar, senão perco”. Essas primeiras cenas viram um molde do que, pra você, soa como amor. Não o amor que você gostaria de ter. O amor que você aprendeu a reconhecer.
Lembra da Vicky, de Invejosa?
Se você assistiu Invejosa, da Netflix, talvez lembre da Vicky. Aos 40, ela vê as amigas casando, tendo a vida que sonharam, enquanto segue num namoro longo com o Daniel que nunca vira compromisso de verdade. Até que ela dá um ultimato: casa ou termina.
O que me toca naquela personagem não é a vontade de casar. É uma coisa mais funda, que aparece nas entrelinhas: a sensação de não se sentir escolhida. De estar num relacionamento e, ainda assim, não ter certeza de ser amada de verdade. De esperar, ano após ano, por uma prova de amor que não chega.
A série mostra isso por fora. No consultório, eu me pergunto o que existe por dentro de uma mulher que aceita passar tanto tempo num lugar onde não se sente escolhida. E, quase sempre, essa história começa bem antes daquele relacionamento. Não sei da vida da Vicky antes do Daniel, a série não me contou. Mas conheço, de perto, a vida de muitas mulheres que se reconhecem nela, e que aprenderam cedo que o amor é algo que se espera, que se merece com paciência, que se tenta arrancar de quem não dá.
Por que me apaixono sempre pela pessoa errada ou indisponível?
Em geral, não é falta de juízo. A gente se liga a quem reproduz uma sensação que aprendeu a reconhecer como amor, mesmo que essa pessoa seja indisponível, e por isso o amor tranquilo às vezes parece morno demais.
Tem quem se sinta em casa na falta, porque foi na falta que aprendeu a amar. Tem quem estranhe a calmaria, porque cresceu achando que amor de verdade precisa ter um friozinho de insegurança. Tem quem só se sinta valiosa quando está conquistando. Nenhuma dessas mulheres gosta de sofrer. Cada uma está, sem saber, procurando a temperatura afetiva que reconhece.
É por isso que o cuidado que chega sem esforço pode soar sem graça, ou bom demais pra ser verdade. Ele não bate com o molde antigo. E a gente, sem perceber, vai de novo na direção do conhecido, mesmo quando o conhecido machuca. A semelhança que a gente procura nos outros, e não acha, está na verdade em nós: no lugar que a gente volta a ocupar dentro do vínculo.
Por que não consigo sair de um relacionamento que me faz mal?
Porque o conhecido, mesmo doído, costuma assustar menos do que o novo. E, por baixo, muitas vezes mora o medo de ficar sozinha, que fala mais alto do que a vontade de ir embora.
A gente se acostuma até com o que dói, e confunde esse acostumar com “é assim mesmo”, “é o que dá pra mim”. Sair dali significa encarar um vazio sem roteiro, e esse vazio, pra quem aprendeu cedo a temer o abandono, parece grande demais. Então a gente fica, se adapta, relativiza, e vai se abandonando aos poucos em nome de um amor que aprendeu a merecer sofrendo. Não é fraqueza. É uma ferida antiga ainda no comando.
Então dá pra parar de repetir?
Dá, sim. O que se repete não é destino: é algo que ainda não foi compreendido, e tudo o que a gente compreende começa a poder escolher diferente.
No instante em que você consegue nomear a sensação que busca, e enxergar o lugar que costuma ocupar, alguma coisa cede. Você deixa de viver aquilo no automático. O caminho acontece no seu tempo, sem pressa. Começa por olhar a própria história com curiosidade em vez de julgamento. Passa por reencontrar aquela menina que aprendeu que amar era esperar e merecer, e oferecer a ela outra ideia de amor. E passa por experimentar respostas novas, o que às vezes é só isto, tão simples e tão difícil: suportar o incômodo de um afeto que chega sem que você precise arrancar, e descobrir, com espanto, que talvez você não precise sofrer pra merecer ficar.
Como o psicodrama ajuda quem repete as mesmas relações
No psicodrama, a gente não só fala sobre a relação que se repete, a gente dá lugar pra ela ganhar cena e ensaiar respostas novas, com segurança. É um trabalho vivencial.
Isso quer dizer que podemos olhar de novo pra aquelas cenas antigas e trocar de lugar nelas: sentir o que a menina sentia, entender o que os adultos ali viviam, e perceber como aquilo foi virando, dentro de você, um jeito de amar. Quando a gente vê de fora o lugar que aprendeu a ocupar, ele para de ser “o meu jeito de ser” e vira uma escolha que pode mudar. A relação com a terapeuta também vira parte disso: pouco a pouco, ela pode ocupar dentro de você o lugar de uma voz diferente, que confirma o seu valor sem que você precise se doar até sumir.
Gosto de pensar o amor como esse movimento de conduzir o outro de volta a si mesmo. Inclusive, e principalmente, o amor por você. Antes de entender as próprias repetições, costuma vir um passo anterior, o de se tratar com mais verdade e menos dureza, sobre o qual escrevi em Autoestima e amor próprio.
Perguntas e respostas
Por que eu repito as mesmas relações, mesmo com pessoas diferentes?
Porque o que a gente repete não é o tipo de pessoa, é a sensação. Lá atrás, você aprendeu a reconhecer um certo clima afetivo como amor, e acaba se reencontrando nele mesmo com parceiros bem diferentes. Não é falta de sorte nem de juízo, é uma memória afetiva antiga reagindo a situações novas.
Por que me apaixono sempre pela pessoa errada ou indisponível?
Porque a pessoa indisponível reproduz uma sensação conhecida, que você aprendeu a chamar de amor. Quando alguém disponível e tranquilo aparece, pode parecer morno, porque não bate com esse molde antigo. Não é frieza sua, é o conhecido parecendo mais seguro que o novo.
Por que não consigo sair de um relacionamento que me faz mal?
Porque sair significa encarar o novo, que não tem roteiro, e isso costuma assustar mais do que a dor conhecida. Muitas vezes, por baixo, está o medo de ficar sozinha. Reconhecer esse medo, em vez de se culpar por ele, é o começo de poder escolher diferente.
Tenho medo de ficar sozinha. Isso me faz repetir essas relações?
Com frequência, sim. O medo de ficar sozinha pode fazer você aceitar ou insistir em vínculos que não te escolhem de verdade, só pra não encarar o vazio. Na terapia, dá pra entender de onde vem esse medo e, aos poucos, descobrir que estar consigo mesma não é o mesmo que estar desamparada.
Se algo aqui tocou numa história sua, talvez valha a pena a gente conversar. No meu atendimento com foco em vínculos afetivos, acompanho mulheres que estão entendendo o que se repete por dentro, e reaprendendo a se ligar sem se abandonar. Vamos conversar?
Prazer, eu sou a Ana
Eu soube cedo quem eu queria ser. Foi aos dezesseis anos, sentada na poltrona de paciente, que descobri o que faria da minha vida. A terapia me salvou de muitas maneiras naquela época, ali aprendi lições duras sobre o amor, e ali também me senti profundamente acolhida. Eu quis, desde então, ser esse lugar de escuta para outra pessoa.
Me formei psicóloga em 2017 e comecei a clínica pelo olhar da terapia cognitivo-comportamental. Com o tempo, percebi que uma abordagem só não dava conta das inquietações que chegavam ao meu consultório. Foi no auge da pandemia, num mundo tão caótico, que essa busca se intensificou, e foi aí que encontrei o psicodrama. Me impactou fundo, do jeito que eu queria. Hoje é a partir dele que construo o meu trabalho.
Atendo mulheres adultas, exclusivamente online. Me encanta trabalhar os vínculos afetivos e as dinâmicas das relações femininas, porque acredito, do fundo da minha alma, que é no vínculo que a gente se cura, ou adoece. E, com tantas pacientes empresárias e dedicadas às suas carreiras, tenho caminhado junto também no fortalecimento do papel profissional delas.
Meu trabalho é ajudar mulheres a compreenderem o que se repete em suas emoções, fortalecerem sua identidade e construírem relações mais saudáveis, consigo mesmas e com quem se relacionam. Cada mulher tem uma história única, e é por isso que ofereço um espaço seguro, acolhedor e sem julgamentos, para que ela possa se olhar com mais profundidade e caminhar no seu tempo.
No Instagram eu divido o que penso e sinto
É lá que eu compartilho reflexões sobre vínculos, relações e autoconhecimento, no mesmo tom de quem senta ao seu lado. Se quiser me conhecer um pouco mais antes de dar o primeiro passo, vem comigo por lá.
Dúvidas que costumam surgir
Se você está pensando em começar, é natural ter perguntas. Deixo aqui as que mais me chegam, com todo o carinho.
Nunca fiz terapia. Como é a primeira conversa?
É um tanto assustador estar diante de uma psicóloga pela primeira vez, eu sei bem como é essa sensação. Por isso escolho deixar esse primeiro encontro o mais leve possível. A gente conversa no seu ritmo, você me conta o que te trouxe até aqui, e não precisa chegar com nada organizado. Só vir.
O atendimento online funciona mesmo?
Funciona, e muito. O que sustenta a terapia é o vínculo entre nós duas, e esse encontro acontece com a mesma profundidade pela tela. A vantagem é que você pode se cuidar de onde estiver, de um lugar onde se sinta segura, sem deslocamento.
Com que frequência e por quanto tempo?
Em geral, os encontros são semanais, porque a constância ajuda o processo a ganhar corpo. Mas isso a gente combina juntas, olhando para o seu momento e para o que faz sentido pra você. Não existe tempo certo, existe o seu tempo.
E se eu não souber o que falar?
Não tem problema nenhum. Muita gente chega sem saber por onde começar, e tudo bem. Faz parte do meu trabalho te ajudar a desobstruir isso, com perguntas e com presença. O silêncio também cabe aqui.
O que eu contar fica em sigilo?
Sim. O sigilo é um compromisso ético e um dos alicerces da terapia. O que acontece entre nós duas fica entre nós duas. É justamente essa segurança que permite que você se abra com verdade.
Preciso estar muito mal para começar?
Não. Você não precisa de um motivo dramático para se dar esse cuidado. Sentir que algo não está fluindo como gostaria já é razão suficiente. Se permita ter esse encontro, com a minha pessoa e, principalmente, com você mesma.



